quinta-feira, 23 de julho de 2026

Em Tudo Tem Poesia

 Há livros que apresentam poemas; Em Tudo Tem Poesia (2026), de Marcos Lizardo, apresenta uma maneira de existir. Desde os primeiros versos, a obra convida o leitor a abandonar a percepção utilitária da realidade para reencontrá-la sob a luz da sensibilidade. Não é casual que o poema inaugural afirme: "Tem poesia no cio / No frio do rio / No fio da luz". Nessa sucessão de imagens, a poesia deixa de ser mero gênero literário e passa a constituir um modo de perceber o mundo, capaz de habitar o ordinário, o invisível e até mesmo o contraditório.

O livro desenvolve uma vigorosa meta poesia. A poesia não é apenas escrita: é interrogada, desafiada, defendida e redefinida ao longo de toda a obra. Em um dos momentos mais expressivos, o autor afirma que "Poesia é palavra arrancada de dentro", imagem que traduz sua concepção de criação artística como experiência visceral. O poema nasce menos da técnica que da necessidade interior, como algo que "vive cantando dilacerada aqui dentro do peito". Essa dimensão orgânica aproxima a escrita de Marcos Lizardo da tradição dos grandes poetas reflexivos brasileiros, para os quais a poesia é destino antes de ser ofício.

A obra também se destaca pelo constante diálogo entre lirismo e filosofia. Questões sobre tempo, memória, morte, amor e identidade atravessam os poemas sem jamais assumirem caráter doutrinário. Ao contrário, cada resposta gera novas perguntas. Em Busca da Poesia, por exemplo, o poeta sintetiza seu pensamento ao afirmar que a poesia "não tem ciência, só essência"; já em outro momento reconhece que "a poesia a gente sente", recusando qualquer tentativa de aprisioná-la em definições conceituais. Essa consciência do limite da linguagem confere ao livro um tom existencial que acompanha toda a leitura.

Entre os temas recorrentes, o tempo ocupa posição privilegiada. Em Tempo que Rói, a passagem dos anos deixa de ser abstração para tornar-se força concreta que "rói os ossos", "embranquece os cabelos" e devolve tudo ao seu domínio. A imagem é simples, mas profundamente simbólica: o tempo não apenas passa; ele transforma, consome e restitui cada existência à própria transitoriedade. Da mesma forma, em diversos poemas, a memória surge como espaço simultaneamente de permanência e perda, revelando que lembrar é também experimentar novas formas de ausência.

Outro aspecto marcante é a recorrência da solidão como condição humana. Em passagens de intensa beleza melancólica, o poeta confessa que "há tanto que ando exilado cá dentro de mim" ou descreve a tristeza como uma paisagem onde "faz frio onde não rio mais". São versos que evitam o sentimentalismo fácil porque se apoiam numa reflexão madura acerca da fragilidade da existência. A dor nunca aparece como espetáculo, mas como matéria inevitável da experiência humana.

Formalmente, Marcos Lizardo demonstra grande domínio do ritmo e da sonoridade. Emprega aliterações, paralelismos, enumerações e repetições que imprimem musicalidade constante aos poemas. Em Coloquial, por exemplo, o desfile quase lúdico das palavras transforma o vocabulário em protagonista, revelando prazer evidente com a matéria sonora da língua portuguesa. Ao mesmo tempo, poemas longos e meditativos convivem harmoniosamente com composições breves e contundentes, conferindo variedade ao conjunto.

Merece destaque, ainda, a honestidade estética do autor. Sua poesia não procura impressionar pelo hermetismo nem pela obscuridade deliberada. Ao contrário, nasce da simplicidade de quem observa profundamente. Quando escreve "Minha casa é a poesia" ou reconhece que "Haja poesia / Para suportar essa falta", Marcos Lizardo revela que a palavra poética não constitui fuga da realidade, mas possibilidade de habitá-la com maior intensidade.

Ao longo da leitura, percebe-se que cada poema dialoga com os demais, formando uma arquitetura coerente. A obra inteira parece responder à pergunta formulada pelo próprio autor na introdução: "Poesia para quê?". A resposta nunca é explícita, mas emerge da experiência proporcionada pelo livro: a poesia serve para preservar a humanidade diante do desgaste do tempo, da violência do cotidiano e do silêncio que tantas vezes ameaça a palavra.

Ao concluir Em Tudo Tem Poesia, o leitor compreende que o título encerra mais que uma afirmação: revela uma escolha ética e estética. A poesia não está pronta nas coisas; manifesta-se no olhar capaz de reconhecê-la. Marcos Lizardo demonstra possuir esse olhar raro e generoso, transformando o cotidiano em matéria lírica e fazendo da palavra um espaço de resistência, beleza e permanência. Seu livro confirma que, enquanto houver quem escreva e quem leia versos como estes, haverá sempre uma forma de reinventar o mundo.

 



sexta-feira, 10 de julho de 2026

Errando o Alvo, Acertando a Alma: Uma Resenha Poética de “Errando Poesia”

"A poesia que me atrevo a escrever não admite a precisão da exatidão, é sempre este andar em torno de alguma coisa ela mesma indefinida..."

 Marcos Lizardo

Em tempos onde a pressa dita o compasso dos corações e a utilidade mecânica sufoca a beleza, surge Errando Poesia (2024, 77 páginas), de Marcos Lizardo. Viabilizada pelos recursos da Lei Paulo Gustavo (tanto em âmbito estadual em Minas Gerais quanto municipal em João Monlevade), a obra não é apenas um livro de versos; é um manifesto de acessibilidade, incluindo uma versão em audiobook narrada por Mariana Lizardo e, acima de tudo, um convite ao desvio.

Logo na apresentação, o autor nos desarma ao resgatar a etimologia mais nobre do verbo "errar": não o equívoco da falha, mas o caminhar sem rumo, o vaguear livre pelos labirintos da existência. Lizardo assume o papel do poeta errante que, ao longo de quase vinte anos de escrita silenciosa, acumulou inquietações para finalmente transbordá-las em um banquete que não serve a nenhum senhor.

A poesia aqui é tratada como um "defeito de nascença", um vício incurável e um ato de desespero. O eu lírico confronta a frieza do pragmatismo cotidiano , o trabalhar, o ganhar dinheiro, o "ser alguém" para agarrar-se à inutilidade sagrada do verso.

A estrutura poética de Marcos Lizardo edifica-se sobre dualidades viscerais que se chocam e se complementam ao longo das páginas:

·        A Palavra e o Silêncio: Em poemas como "Eu mexo com palavra" e "Descamba", a linguagem é uma matéria perigosa. Mexer com a palavra é permitir que ela mexa de volta com o poeta, arrancando adjetivos e desafiando o silêncio insuportável do mundo.

·        A Torneira Aberta da Memória: No emblemático "Torneira aberta", a criação poética é comparada ao fluxo incontrolável da água. Ao abrir as comportas, Lizardo resgata a infância, o gosto pelas palavras simples ("boca, pedra, folha, sapo"), os primeiros tombos de bicicleta e as dores agudas do primeiro amor.

·        O Tempo e a Ruína do Corpo: Em "Esse menino", o poeta lamenta o aprisionamento em um corpo que envelhece e morre, enquanto a infância eterna permanece viva e oculta como um remédio para a alma.

O lirismo de Lizardo não busca o aplauso fácil ou a rima simétrica. Ele habita o descompasso. No poema homônimo "Errando Poesia", o autor escreve:

“É com a vida que erro minha poesia / E com a poesia erro meus sonhos”

Há uma circularidade dolorosa e bela nesse trecho, um jogo de espelhos onde viver, sonhar e escrever são formas distintas de se perder na mesma estrada.

Já em "Prelúdio Derradeiro", o mito de Prometeu é evocado para ilustrar o preço do fazer poético: tocar o fogo divino e o demoníaco, aceitando a angústia de que existir é algo que dói na pele, mas que o amor é o único elemento capaz de queimar e devolver o indivíduo inteiro.

Errando Poesia é um livro de confrontos sutis. Ele nos lembra que a poesia não nos salva do horror do mundo ("Nem a poesia nos salva / Desse tempo tão ruim"), mas nos oferece a dignidade do grito diante do muro de silêncio que a realidade impõe.

Marcos Lizardo entrega uma obra necessária, talhada na lida de quem prefere o abismo da sensibilidade à planície anestesiada da razão. Ler este livro é aceitar o convite para desajustar o relógio, perder o norte e, deliberadamente, errar o caminho.




 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Lacrar tem a ver com fechar, encerrar, por termo...

Mas isso é coisa de ignorantes, pessoas que crêem que existe uma única verdade na qual elas põem fé e ponto final, porém nem o mero 1 + 1 poderia ser "lacrado" como 2, pois, num exemplo raso, 1 gota d'água + 1 gota d'água formam 1 gota d'água de volume maior sem, no entanto, deixar de ser apenas 1 gota d'água, a menos que estejam, ainda, "não somadas" ou separadas em 1 + 1 gotas d'água iniciais!

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O ministério da lacração garante que humano preto é amaldiçoado porque a Mãe África teria sido amaldiçoada, contudo, sendo ela o local ou berço da Humanidade, a Matemática "lacraria" que toda a Humanidade seria, então, pelo raso exemplo acima, amaldiçoada!
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Já a Física riria da Matemática e diria que, pelo fato de, fisicamente, a África estar contida no planeta Terra, toda a Terra, sem lucubrar em Universo, estaria amaldiçoada, pois de uma pessoa, não importando em qual órgão sofra com um câncer, diz-se: "fulano está com câncer!", ou seja, da pessoa toda e não apenas do órgão afetado é que se diz!
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A Biologia, por sua vez, riria da Matemática e da Física e diria que, se colocassem ao avesso todo primata humano, a anatomia seria igual e ninguém haveria diferente, de maneira que só existiria uma raça e, concluindo, toda a raça humana estaria amaldiçoada!
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Já o pândego poeta, diria que tudo é fruto da Filosofia de cada um e não riria porque rir de deficientes mentais, conhecidos como "lacradores", é coisa feia, conforme mamãe já o alertou e ela, certamente, daria bronca no poeta se ele a desonrasse praticando essa coisa feia.
Aliás, ele é, mesmo, pândego, se desdiz, e riria de imbecis, sim, pois "riria" é futuro do pretérito e o poeta "rir iria" porque já o faz no presente, como já o fez no pretérito e o fará no futuro, caso, esse, venha a ser presente para o pândego!
P.S.: Perdoa, mamãe! A senhora morreu e eu não resisti à tentação.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Fruta-pão

 


Queria gostar do meu cachorro como ele gosta de mim

Queria vê-lo olhar pra mim na outra vida

Queria essa lambida divertida
Queria ser mais digno de ti, menino...
Ah! Como eu queria ser tão bom quanto tu és
Queria ter biscoito todo dia, te ver correr com a coruja
Teu brinquedo predileto...
Gosto tanto de pegar as torradas,
Dividir e te ver sorrir macio
Com o olhar assim feliz
Com pouco
Com nada
Tão lindo
Tão lindo
Que bom que te escolhi
No quintal do golpista
Andando todo bambo
E pensei: és tu, safado!
Tão lindo
Tão lindo



sábado, 3 de maio de 2025

Resenha de "Espólio" da Flávia Ferrari

 Recebi o terceiro livro da Flavia Ferrari: Espólio


– Publicação independente como ela própria, Capa da Jéssica Iancoski e um conteúdo daqueles que a gente lê, relê e sabe comentar: é pura Poesia!

A fluidez com que os versos decorrem e vão escorrendo em forma de poemas vai saciando aquela sede/fome de Poesia escrita e bem dita de forma que faz a gente sentir um abraço e ouvir o sussurrar a nos dizer: "Eu sei! Também sinto isso"...

O poema que abre essa Obra cativante, “Arrima” pode passar despercebido apenas ao desavisado poeticamente, mas mostra a alma nua da poeta como a passar coberta apenas pela translucidez proporcionada por uma imaginária cortina transparente e, enquanto ela passa, lança seu olhar concorde como a dizer:

“é também a minha”...

Noto em seguida a efêmera fragilidade que completa a ideia do que será objeto da simplicidade, mas não simplória morada porque lar é lar e versos não precisam do rebuscamento matemático, apenas de um poema onde se encaixem e como se encaixam os da Flávia!

“ao humano, uma melindrada barreira

qualquer muro é menos dissimulado”

Em “Pontas de lança” aquela realidade caótica que restringe sem restringir, de fato, e a separação ou privacidade que deveria apenas ser combinada, precisa da imposição dos quase limites ou o que valha para garantir a tal inviolabilidade.

E a “iluminação”? A limitada luz que permite apenas ver os “intrusos” misturados ao abstrato do pensar filosófico acerca das coisas que ornam o recôndito ou a iluminação de metaforizar como um dom que metominiza as lucubrações mentais?

Demoro-me na prosopopeia que define as poltronas e vou observando cada cena, enquanto a poeta “ausculta” e descreve o papel dessas que “sabem quase tudo sobre os homens” e, deles, amparam ou protegem o “lar”...

“não aceito metades

do sono

do amanhecer

de você”

É como ela explica as “medidas” aceitáveis e depois confessa a “revelação” de seus olhos que brilharam quando os ouvidos captaram aquele “sim”.

Já o “Sal” nos faz corar.

Ainda há quem core, quem leia, releia, sorria e pense: nossa?

Eu sigo nesse deliciar-me com a leitura e me deparo com:

“a materialidade, essa sim, é toda ilusão”

A Eternidade? Quem sabe? Conforta e importa confortar, já a realidade, é caravana: passa.

Na “Vigília” a poeta comete a “extravagância” de sonhar reciprocidades e lembrou de se amarrar “na exuberância do primeiro enlace com o fervor do último toque”...

Observo a “Claraboia” em que tanto a poeta pensa, vê essencial, morta no “Futuro”, que já é, e algema a si mesma no diálogo só porque “a pele aprende rápido”.

Como entender o “Estanque” da paixão, a “Estreia” da novidade e olhar pelas “Janelas” da outra casa pensando nos costumes da cidade?

Alguém me disse que não entendo “Semântica”, já a Flávia, diz:

“Uso o amor, minha palavra coringa”...

No mais ela é “Reclusão” e “Dissocia”, afirma:

“queria um corpo-console-inconsciente

que dança se outros dançam”...

Eu também queria! E tu?

Curtiste essa pseudo-resenha até aqui?

Mas não viste quase nada, já eu aproveitei que a Flávia Ferrari confessou:

“: desejei tanto ar que ganhei asas”

E cheguei com ela ao final dessa leitura agradável, quase como um voyeur dessa alma mulher e o que mais quiser ser porque pode e me prendeu letra por letra, verso por verso, elevou-me com ela!

Conheça a Obra completa! Entre em contato:

https://www.instagram.com/fmferrari/



Ronaldo Rhusso