A SÓS COM A POESIA...
('Estamos de olhos nos bons para perdermos de vistas os maus'. Ronaldo Rhusso).
sexta-feira, 24 de julho de 2026
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Em Tudo Tem Poesia
Há livros que apresentam poemas; Em Tudo Tem Poesia (2026), de Marcos Lizardo, apresenta uma maneira de existir. Desde os primeiros versos, a obra convida o leitor a abandonar a percepção utilitária da realidade para reencontrá-la sob a luz da sensibilidade. Não é casual que o poema inaugural afirme: "Tem poesia no cio / No frio do rio / No fio da luz". Nessa sucessão de imagens, a poesia deixa de ser mero gênero literário e passa a constituir um modo de perceber o mundo, capaz de habitar o ordinário, o invisível e até mesmo o contraditório.
O livro desenvolve uma vigorosa meta poesia. A
poesia não é apenas escrita: é interrogada, desafiada, defendida e redefinida
ao longo de toda a obra. Em um dos momentos mais expressivos, o autor afirma
que "Poesia é palavra arrancada de dentro", imagem que traduz
sua concepção de criação artística como experiência visceral. O poema nasce
menos da técnica que da necessidade interior, como algo que "vive cantando
dilacerada aqui dentro do peito". Essa dimensão orgânica aproxima a
escrita de Marcos Lizardo da tradição dos grandes poetas reflexivos brasileiros,
para os quais a poesia é destino antes de ser ofício.
A obra também se destaca pelo constante diálogo
entre lirismo e filosofia. Questões sobre tempo, memória, morte, amor e
identidade atravessam os poemas sem jamais assumirem caráter doutrinário. Ao
contrário, cada resposta gera novas perguntas. Em Busca da Poesia, por
exemplo, o poeta sintetiza seu pensamento ao afirmar que a poesia "não
tem ciência, só essência"; já em outro momento reconhece que "a
poesia a gente sente", recusando qualquer tentativa de aprisioná-la em
definições conceituais. Essa consciência do limite da linguagem confere ao
livro um tom existencial que acompanha toda a leitura.
Entre os temas recorrentes, o tempo ocupa posição
privilegiada. Em Tempo que Rói, a passagem dos anos deixa de ser
abstração para tornar-se força concreta que "rói os ossos", "embranquece
os cabelos" e devolve tudo ao seu domínio. A imagem é simples, mas
profundamente simbólica: o tempo não apenas passa; ele transforma, consome e
restitui cada existência à própria transitoriedade. Da mesma forma, em diversos
poemas, a memória surge como espaço simultaneamente de permanência e perda,
revelando que lembrar é também experimentar novas formas de ausência.
Outro aspecto marcante é a recorrência da solidão
como condição humana. Em passagens de intensa beleza melancólica, o poeta
confessa que "há tanto que ando exilado cá dentro de mim" ou
descreve a tristeza como uma paisagem onde "faz frio onde não rio
mais". São versos que evitam o sentimentalismo fácil porque se apoiam
numa reflexão madura acerca da fragilidade da existência. A dor nunca aparece
como espetáculo, mas como matéria inevitável da experiência humana.
Formalmente, Marcos Lizardo demonstra grande
domínio do ritmo e da sonoridade. Emprega aliterações, paralelismos,
enumerações e repetições que imprimem musicalidade constante aos poemas. Em Coloquial,
por exemplo, o desfile quase lúdico das palavras transforma o vocabulário em
protagonista, revelando prazer evidente com a matéria sonora da língua portuguesa.
Ao mesmo tempo, poemas longos e meditativos convivem harmoniosamente com
composições breves e contundentes, conferindo variedade ao conjunto.
Merece destaque, ainda, a honestidade estética do
autor. Sua poesia não procura impressionar pelo hermetismo nem pela obscuridade
deliberada. Ao contrário, nasce da simplicidade de quem observa profundamente.
Quando escreve "Minha casa é a poesia" ou reconhece que "Haja
poesia / Para suportar essa falta", Marcos Lizardo revela que a
palavra poética não constitui fuga da realidade, mas possibilidade de habitá-la
com maior intensidade.
Ao longo da leitura, percebe-se que cada poema
dialoga com os demais, formando uma arquitetura coerente. A obra inteira parece
responder à pergunta formulada pelo próprio autor na introdução: "Poesia
para quê?". A resposta nunca é explícita, mas emerge da experiência
proporcionada pelo livro: a poesia serve para preservar a humanidade diante do
desgaste do tempo, da violência do cotidiano e do silêncio que tantas vezes ameaça
a palavra.
Ao concluir Em Tudo Tem Poesia, o leitor
compreende que o título encerra mais que uma afirmação: revela uma escolha
ética e estética. A poesia não está pronta nas coisas; manifesta-se no olhar
capaz de reconhecê-la. Marcos Lizardo demonstra possuir esse olhar raro e
generoso, transformando o cotidiano em matéria lírica e fazendo da palavra um
espaço de resistência, beleza e permanência. Seu livro confirma que, enquanto
houver quem escreva e quem leia versos como estes, haverá sempre uma forma de
reinventar o mundo.
sexta-feira, 10 de julho de 2026
Errando o Alvo, Acertando a Alma: Uma Resenha Poética de “Errando Poesia”
"A poesia que me atrevo a escrever não admite a precisão da exatidão, é sempre este andar em torno de alguma coisa ela mesma indefinida..."
Marcos Lizardo
Em tempos onde a pressa dita o
compasso dos corações e a utilidade mecânica sufoca a beleza, surge Errando Poesia (2024, 77 páginas), de Marcos
Lizardo. Viabilizada pelos recursos da Lei Paulo Gustavo (tanto em âmbito
estadual em Minas Gerais quanto municipal em João Monlevade), a obra não é
apenas um livro de versos; é um manifesto de acessibilidade, incluindo uma
versão em audiobook narrada por Mariana Lizardo e, acima de tudo, um convite ao
desvio.
Logo na apresentação, o autor nos
desarma ao resgatar a etimologia mais nobre do verbo "errar": não o
equívoco da falha, mas o caminhar sem rumo, o vaguear livre pelos labirintos da
existência. Lizardo assume o papel do poeta errante que, ao longo de quase
vinte anos de escrita silenciosa, acumulou inquietações para finalmente
transbordá-las em um banquete que não serve a nenhum senhor.
A poesia aqui é tratada como um "defeito de nascença", um vício incurável e
um ato de desespero. O eu lírico confronta a frieza do pragmatismo cotidiano , o
trabalhar, o ganhar dinheiro, o "ser alguém" para agarrar-se à
inutilidade sagrada do verso.
A estrutura poética de Marcos Lizardo
edifica-se sobre dualidades viscerais que se chocam e se complementam ao longo
das páginas:
·
A Palavra e o Silêncio: Em poemas como "Eu mexo com palavra" e "Descamba", a linguagem é uma matéria
perigosa. Mexer com a palavra é permitir que ela mexa de volta com o poeta,
arrancando adjetivos e desafiando o silêncio insuportável do mundo.
·
A Torneira Aberta da Memória: No emblemático "Torneira aberta", a criação poética é
comparada ao fluxo incontrolável da água. Ao abrir as comportas, Lizardo
resgata a infância, o gosto pelas palavras simples ("boca,
pedra, folha, sapo"), os primeiros tombos de bicicleta e as
dores agudas do primeiro amor.
·
O Tempo e a Ruína do Corpo: Em "Esse menino", o poeta lamenta o
aprisionamento em um corpo que envelhece e morre, enquanto a infância eterna
permanece viva e oculta como um remédio para a alma.
O lirismo de Lizardo não busca o
aplauso fácil ou a rima simétrica. Ele habita o descompasso. No
poema homônimo "Errando Poesia", o autor
escreve:
“É com a vida que erro minha poesia /
E com a poesia erro meus sonhos”
Há uma circularidade dolorosa e bela
nesse trecho, um jogo de espelhos onde viver, sonhar e escrever são formas
distintas de se perder na mesma estrada.
Já em "Prelúdio Derradeiro",
o mito de Prometeu é evocado para ilustrar o preço do fazer poético: tocar o
fogo divino e o demoníaco, aceitando a angústia de que existir é algo que dói
na pele, mas que o amor é o único elemento capaz de queimar e devolver o
indivíduo inteiro.
Errando Poesia é um livro de
confrontos sutis. Ele nos lembra que a poesia não nos salva do horror do mundo
("Nem a poesia nos salva / Desse tempo tão ruim"),
mas nos oferece a dignidade do grito diante do muro de silêncio que a realidade
impõe.
Marcos Lizardo entrega uma obra
necessária, talhada na lida de quem prefere o abismo da sensibilidade à
planície anestesiada da razão. Ler este livro é aceitar o convite para
desajustar o relógio, perder o norte e, deliberadamente, errar o caminho.