Uma leitura de A Bolívia é uma doença mental, de Nina Maria de Sousa Veras
Por Ronaldo Rhusso
Talvez toda nação carregue, além de sua história,
uma versão imaginária de si mesma. Uma imagem anterior ao espelho, uma espécie
de retrato que aprende a reconhecer como próprio antes mesmo de perguntar quem
o desenhou. Algumas sociedades passam a vida tentando aproximar o corpo dessa
imagem. Outras descobrem, às vezes tarde demais, que a imagem não foi feita por
elas.
A Bolívia é uma doença mental, dissertação de Nina Maria de
Sousa Veras, pode ser lida como uma investigação sobre esse desencontro.
Seu ponto de partida é a literatura de Giovanna
Rivero, particularmente 98 segundos sin sombra, Para comerte mejor
e Tierra fresca de su tumba. A pesquisa acompanha nessas obras a
presença da abjeção, do sofrimento, da doença, da migração, da identidade e das
formas de utopia que surgem justamente onde a experiência parece mais próxima
do colapso. A Bolívia aparece como uma sociedade marcada pelo abigarramiento,
isto é, por uma heterogeneidade que não se resolve numa síntese pacificadora.
Mas o verdadeiro movimento da dissertação não está
apenas em demonstrar que a doença é uma metáfora recorrente na obra de Rivero.
Está em deslocar o lugar onde a doença costuma ser procurada.
A pergunta deixa de ser “o que há de errado com
esse povo?” e começa a adquirir outra forma: que história produziu a
necessidade de considerar esse povo errado?
É uma mudança pequena na formulação e enorme na
consequência.
Durante boa parte da história intelectual latino
americana, a diferença foi frequentemente interpretada como deficiência. A
mestiçagem tornou se suspeita. A presença indígena tornou se obstáculo. O rural
foi associado ao atraso. A multiplicidade cultural foi tratada como ausência de
unidade. A instabilidade política foi convertida em característica psicológica.
O fracasso de determinados projetos nacionais passou a ser procurado na
constituição dos próprios habitantes.
A dissertação recupera essa tradição do
diagnóstico, particularmente na figura do pueblo enfermo, para mostrar
como a doença foi transformada em explicação histórica. O que era resultado de
processos políticos, econômicos e coloniais passou a parecer uma propriedade
quase natural de quem sofria seus efeitos.
É nesse momento que Frantz Fanon se torna mais do
que uma referência teórica útil. Ele oferece uma chave para compreender a
operação psicológica dessa violência.
Em Pele negra, máscaras brancas, Fanon
percebe que o complexo de inferioridade não nasce espontaneamente dentro do
colonizado. Ele é produzido pela relação colonial, pela existência de uma
hierarquia racial que coloca o europeu como medida de humanidade e o colonizado
como sua insuficiência. A dissertação utiliza precisamente esse argumento para
desmontar a ideia de que a inferioridade seria uma qualidade intrínseca dos
povos colonizados.
A importância de Fanon para a leitura de Nina está
aí: o sofrimento psicológico pode ter uma história política.
Isso altera radicalmente a compreensão da doença.
Se o sujeito sofre porque foi colocado numa
determinada posição histórica, chamá lo simplesmente de doente significa
retirar da doença sua genealogia. A patologia passa a parecer individual aquilo
que foi socialmente produzido.
O colonizador, nesse sentido, não precisa apenas
conquistar o território. Precisa produzir uma linguagem capaz de dizer ao
conquistado o que ele é.
E talvez a forma mais eficaz de dominação seja
aquela que consegue fazer o dominado pronunciar espontaneamente o diagnóstico
que recebeu.
É aqui que o título da dissertação adquire sua
ambiguidade mais poderosa.
“A Bolívia é uma doença mental.”
Quem fala?
Sobre quem fala?
E de onde fala?
Nina não transforma essas perguntas em mero jogo
interpretativo. Ela as acompanha dentro das próprias personagens de Rivero. Em Piel
de asno, a diferença entre “Ser boliviano es una enfermedad mental” e
“Bolivia es una enfermedad mental” torna se decisiva. Na primeira formulação, a
enfermidade parece habitar o indivíduo. Na segunda, o problema se desloca para
a própria construção daquilo que se chama Bolívia. A personagem deixa de
receber a doença como identidade e começa a devolvê la ao sistema que a
produziu.
É talvez nesse pequeno deslocamento verbal que
esteja uma das maiores forças políticas da literatura de Rivero.
Uma palavra muda de lugar.
E, com ela, muda o lugar da culpa.
O que antes parecia essência passa a parecer
construção.
A identidade deixa de ser uma substância e começa a
revelar sua fabricação.
Nesse ponto, a leitura de Michel Foucault pode
iluminar uma dimensão que a própria dissertação desenvolve ao discutir biopoder
e biopolítica. Foucault nos ensinou a desconfiar das categorias que parecem
simplesmente descrever a realidade, porque algumas delas também participam da
produção daquilo que descrevem. Classificar, separar, normalizar, definir o
saudável e o patológico são operações que podem envolver relações de poder.
A dissertação emprega essa perspectiva quando
observa como o Estado e o discurso nacional podem exercer poder sobre os
corpos, inclusive por meio da guerra, da defesa da pátria e da administração da
vida e da morte.
Mas há algo ainda mais interessante quando essa
leitura é aproximada do conjunto da pesquisa.
Talvez o biopoder não controle apenas os corpos que
vivem.
Ele também produza os corpos que precisam ser
considerados desviantes.
Aquele que não corresponde ao modelo nacional, ao
modelo racial, ao modelo moderno, ao modelo produtivo ou ao modelo identitário
torna se suspeito. A diferença precisa ser explicada. E, quando não pode ser
explicada, é frequentemente patologizada.
A doença passa, então, a funcionar como uma palavra
de fronteira.
De um lado, aquilo que se considera normal.
Do outro, aquilo que precisa ser corrigido.
A literatura de Rivero interessa a Nina justamente
porque seus personagens vivem nessa fronteira.
Eles não cabem.
E o fato de não caberem não é um detalhe
psicológico.
É uma posição histórica.
A sociedade boliviana aparece como uma formação em
que diferentes tempos, culturas, pertencimentos e experiências permanecem em
contato sem se dissolverem uns nos outros. A noção de ch'ixi, recuperada
a partir de Silvia Rivera Cusicanqui, permite pensar justamente essa
coexistência sem exigir uma síntese. A realidade pode ser contraditória sem que
a contradição precise ser eliminada.
Aqui a dissertação alcança uma questão que
ultrapassa a Bolívia.
A modernidade costuma apresentar se como uma
promessa de superação da desordem. Ela imagina uma linha que vai do atraso ao
progresso, da tradição à modernidade, da irracionalidade à razão, da
fragmentação à unidade. Mas quem decide qual dessas posições representa o
futuro?
E, sobretudo, quem ficou encarregado de permanecer
no passado?
Nina mostra que a América Latina foi incorporada ao
sistema moderno não apenas como participante, mas dentro de uma hierarquia em
que modernidade, colonialidade, racismo e capitalismo se constituíram
conjuntamente. O “moderno” passou a ocupar o lugar do desejável enquanto
determinadas experiências indígenas, rurais e não ocidentais eram empurradas
para o campo do atraso.
É aqui que uma aproximação com Walter Benjamin se
torna fecunda, ainda que Benjamin não seja uma referência explicitamente
utilizada na dissertação.
Benjamin desconfiava profundamente da narrativa
histórica que transforma o progresso em uma espécie de marcha inevitável. Para
ele, aquilo que uma sociedade chama de progresso pode carregar consigo os
escombros daqueles que foram sacrificados para que esse progresso parecesse
possível.
Essa perspectiva ilumina uma das questões centrais
da pesquisa de Nina: o futuro pode ser uma forma de violência quando chega
acompanhado da exigência de abandonar tudo aquilo que não cabe em sua promessa.
O “arquiconhecido futuro” de Genoveva adquire, sob
essa luz, uma tonalidade particularmente inquietante. A palavra futuro deveria
abrir o horizonte, mas pode funcionar como uma ordem. Há um futuro correto, uma
direção correta, uma maneira correta de avançar. O indivíduo é pressionado a
desejar aquilo que já foi definido como desejável.
Genoveva percebe essa violência.
O futuro pode tornar se chantagem.
E a utopia, quando transformada em obrigação,
começa a carregar a estrutura da distopia.
É uma das grandes sutilezas da dissertação perceber
que a crítica ao determinismo não conduz simplesmente à celebração da
esperança. Nina é mais cautelosa. As personagens precisam da utopia, mas a
utopia também pode produzir novos aprisionamentos. O futuro não é
necessariamente libertação. Pode ser outra forma de normalização.
Nesse aspecto, uma aproximação com Nietzsche também
pode ser produtiva.
Não porque a dissertação seja nietzschiana, mas
porque Nietzsche nos oferece uma pergunta incômoda sobre a origem dos valores: quem
estabeleceu que determinado modo de viver é superior a outro?
Aplicada com cuidado ao universo de Rivero, essa
pergunta desloca novamente a doença.
Talvez o problema não esteja em uma sociedade que
não alcança determinada norma.
Talvez esteja na norma que precisa transformar em
doença tudo aquilo que não consegue reconhecer como valor.
A doença, portanto, não é apenas um estado.
É também uma classificação.
E toda classificação possui uma história.
Essa é uma das razões pelas quais a literatura de
Rivero não se deixa reduzir a uma narrativa de sofrimento. Suas personagens não
são simplesmente vítimas de um mundo hostil. Elas também pensam, recusam,
imaginam, migram, inventam, acreditam e criam.
É nesse ponto que a dissertação faz sua passagem
mais delicada: da doença à criação.
O que parecia sintoma pode tornar se linguagem.
O que parecia desajuste pode abrir uma brecha.
O que parecia loucura pode produzir uma forma
diferente de conhecimento.
A pesquisa observa que, no universo de Rivero, a
criação artística aparece precisamente junto daqueles que foram diagnosticados
com algum tipo de desordem. O subterrâneo do Império de Evo torna se um espaço
paradoxal em que doença mental e arte aparecem lado a lado.
Essa imagem merece atenção.
Porque talvez a arte não esteja do lado oposto da
doença.
Talvez ela esteja exatamente onde a doença deixa de
ser apenas sofrimento e passa a produzir uma pergunta.
É aqui que a dissertação de Nina toca algo que
ultrapassa seu objeto imediato.
Toda sociedade produz seus sujeitos inconvenientes.
Alguns são inconvenientes porque pensam.
Outros porque lembram.
Outros porque não pertencem.
Outros porque pertencem de uma maneira que não
estava prevista.
E há aqueles que se tornam perigosos porque recusam
a explicação que lhes foi dada sobre si mesmos.
Esses sujeitos não precisam necessariamente
destruir a ordem.
Às vezes basta que deixem de acreditar nela.
Em Tierra fresca de su tumba, os corpos dos
migrantes carregam cemitérios inteiros dentro de si. A imagem é cruel porque
transforma a memória em matéria corporal. A pessoa parte, mas aquilo que deixou
não permanece simplesmente no lugar de origem. Viaja dentro dela.
O exílio torna se uma anatomia.
A pátria, uma cicatriz.
A memória, um órgão.
Talvez seja por isso que a doença seja uma imagem
tão adequada para pensar a nacionalidade em Rivero. Uma doença não precisa
estar visível para determinar uma vida. Ela pode permanecer silenciosa, alterar
movimentos, interferir no cotidiano, reaparecer depois de anos. Pode ser descoberta
apenas quando alguma coisa já não funciona como antes.
A pátria também pode agir assim.
Há pessoas que só descobrem o tamanho de sua
relação com um país quando estão longe dele.
Há pessoas que descobrem que pertenciam a alguma
coisa justamente quando deixam de pertencer.
Há pessoas que precisam partir para perceber que
carregavam consigo aquilo de que tentavam fugir.
Mas Nina não transforma essa dor em romantismo.
E isso é importante.
A dissertação não diz que sofrer é bom, nem que a
doença é desejável, nem que a opressão produz necessariamente sujeitos mais
criativos. Sua formulação é mais responsável: dentro da experiência da dor
podem surgir movimentos de criação, fé, crença, esperança e impulso utópico que
não eliminam o sofrimento, mas impedem que ele seja tomado como destino.
É aqui que a ideia de destino adverso precisa ser
enfrentada.
O destino é uma das formas mais eficientes de
naturalizar a história.
Quando se diz que determinado povo “é assim”, a
história termina.
Quando se diz que determinado povo “tornou se
assim”, a história recomeça.
Essa diferença é decisiva para a dissertação.
O pueblo enfermo transforma a história em
essência.
Nina tenta devolver a essência à história.
E, ao fazer isso, abre espaço para a possibilidade
de transformação.
Benjamin ajuda a enxergar o passado como aquilo que
continua exigindo leitura. Fanon ajuda a compreender que a inferioridade pode
ser fabricada pela relação colonial. Foucault permite perceber que normalidade
e patologia não estão fora das relações de poder. Nietzsche oferece uma
suspeita radical sobre os valores que se apresentam como naturais.
Nenhum desses autores precisa ocupar o centro da
dissertação para iluminar sua arquitetura subterrânea.
Todos ajudam a formular uma pergunta que talvez
seja a mais difícil de todas: quanto daquilo que chamamos de doença é
sofrimento e quanto é simplesmente a experiência de não caber na forma de vida
que alguém declarou normal?
A resposta de Rivero, conforme a leitura de Nina,
não é simples.
E ainda bem.
Porque uma resposta simples destruiria justamente
aquilo que a pesquisa procura preservar: a complexidade.
A Bolívia não precisa ser transformada em uma
unidade perfeita para existir.
A contradição não precisa ser curada.
O conflito não precisa produzir uma síntese.
A identidade não precisa tornar se estável.
O futuro não precisa ser conhecido.
A literatura pode permanecer aberta.
A nação também.
Talvez seja essa a razão pela qual a inconclusão não
enfraquece a dissertação. Ao contrário, ela corresponde ao próprio objeto que a
pesquisa encontrou. Rivero não oferece personagens destinados a concluir o
mundo. Eles permanecem em movimento, e a própria Bolívia surge como uma
história ainda aberta.
No final, a pergunta sobre a cura permanece.
Mas talvez essa permanência seja o ponto.
Porque a cura absoluta poderia significar o triunfo
definitivo de uma normalidade. E a normalidade que a dissertação nos ensinou a
questionar é justamente aquela que decide previamente o que uma pessoa, um povo
ou uma nação deveria ser.
Por isso, talvez a cura não esteja em deixar de ser
aquilo que o diagnóstico chamou de doença.
Talvez esteja em deixar de aceitar o diagnóstico
como identidade.
Essa é uma diferença imensa.
E é também o ponto em que a literatura de Giovanna
Rivero e a leitura de Nina Veras se encontram com uma questão muito mais ampla:
a liberdade começa quando o sujeito recupera o direito de narrar a origem de
sua própria ferida.
Não para negá-la.
Não para glorifica-la.
Mas para compreender que uma cicatriz também é uma
forma de memória.
No derradeiro movimento da dissertação, a doença
permanece. A sombra não desaparece definitivamente. A utopia não resolve tudo.
O futuro continua incerto. A contradição continua aberta.
E é justamente nessa ausência de fechamento que o
trabalho encontra sua força.
A Bolívia continua doente.
Mas agora sabemos que a doença possui história.
Sabemos que houve quem a nomeasse.
Sabemos que alguns dos que receberam o diagnóstico
começaram a desconfiar dele.
E sabemos, sobretudo, que existe uma diferença
entre carregar uma doença e ser reduzido a ela.
Talvez seja nesse intervalo que a literatura
encontre sua tarefa mais difícil.
Não curar.
Não explicar tudo.
Não devolver o mundo à ordem.
Mas fazer aquilo que a boa literatura sempre fez
quando se recusou a obedecer às versões oficiais da realidade: dar linguagem
ao que foi condenado ao silêncio.
A dissertação de Nina Maria de Sousa Veras é forte
justamente porque não termina com uma Bolívia reconciliada consigo mesma.
Termina com uma Bolívia ainda ferida, contraditória, inquieta e criadora. Uma
Bolívia que não cabe inteiramente dentro de nenhuma definição.
E talvez seja essa a sua forma mais profunda de
saúde.
Não a ausência da doença.
Mas a recusa de permitir que a doença diga,
sozinha, quem se é.
A última frase da dissertação parece condensar essa
descoberta: “A Bolívia é uma doença mental, mas a doença é também uma arma.”
Depois dela, o título já não significa exatamente a
mesma coisa.
Porque talvez a doença nunca tenha sido o fim da
história.
Talvez tenha sido o lugar de onde alguém finalmente
começou a perguntar:
quem escreveu o diagnóstico?
E, sobretudo:
por que eu deveria acreditar nele?