domingo, 30 de agosto de 2026

A doença como memória do que não foi curado

 Uma leitura de A Bolívia é uma doença mental, de Nina Maria de Sousa Veras

Por Ronaldo Rhusso

Talvez toda nação carregue, além de sua história, uma versão imaginária de si mesma. Uma imagem anterior ao espelho, uma espécie de retrato que aprende a reconhecer como próprio antes mesmo de perguntar quem o desenhou. Algumas sociedades passam a vida tentando aproximar o corpo dessa imagem. Outras descobrem, às vezes tarde demais, que a imagem não foi feita por elas.

A Bolívia é uma doença mental, dissertação de Nina Maria de Sousa Veras, pode ser lida como uma investigação sobre esse desencontro.

Seu ponto de partida é a literatura de Giovanna Rivero, particularmente 98 segundos sin sombra, Para comerte mejor e Tierra fresca de su tumba. A pesquisa acompanha nessas obras a presença da abjeção, do sofrimento, da doença, da migração, da identidade e das formas de utopia que surgem justamente onde a experiência parece mais próxima do colapso. A Bolívia aparece como uma sociedade marcada pelo abigarramiento, isto é, por uma heterogeneidade que não se resolve numa síntese pacificadora.

Mas o verdadeiro movimento da dissertação não está apenas em demonstrar que a doença é uma metáfora recorrente na obra de Rivero. Está em deslocar o lugar onde a doença costuma ser procurada.

A pergunta deixa de ser “o que há de errado com esse povo?” e começa a adquirir outra forma: que história produziu a necessidade de considerar esse povo errado?

É uma mudança pequena na formulação e enorme na consequência.

Durante boa parte da história intelectual latino americana, a diferença foi frequentemente interpretada como deficiência. A mestiçagem tornou se suspeita. A presença indígena tornou se obstáculo. O rural foi associado ao atraso. A multiplicidade cultural foi tratada como ausência de unidade. A instabilidade política foi convertida em característica psicológica. O fracasso de determinados projetos nacionais passou a ser procurado na constituição dos próprios habitantes.

A dissertação recupera essa tradição do diagnóstico, particularmente na figura do pueblo enfermo, para mostrar como a doença foi transformada em explicação histórica. O que era resultado de processos políticos, econômicos e coloniais passou a parecer uma propriedade quase natural de quem sofria seus efeitos.

É nesse momento que Frantz Fanon se torna mais do que uma referência teórica útil. Ele oferece uma chave para compreender a operação psicológica dessa violência.

Em Pele negra, máscaras brancas, Fanon percebe que o complexo de inferioridade não nasce espontaneamente dentro do colonizado. Ele é produzido pela relação colonial, pela existência de uma hierarquia racial que coloca o europeu como medida de humanidade e o colonizado como sua insuficiência. A dissertação utiliza precisamente esse argumento para desmontar a ideia de que a inferioridade seria uma qualidade intrínseca dos povos colonizados.

A importância de Fanon para a leitura de Nina está aí: o sofrimento psicológico pode ter uma história política.

Isso altera radicalmente a compreensão da doença.

Se o sujeito sofre porque foi colocado numa determinada posição histórica, chamá lo simplesmente de doente significa retirar da doença sua genealogia. A patologia passa a parecer individual aquilo que foi socialmente produzido.

O colonizador, nesse sentido, não precisa apenas conquistar o território. Precisa produzir uma linguagem capaz de dizer ao conquistado o que ele é.

E talvez a forma mais eficaz de dominação seja aquela que consegue fazer o dominado pronunciar espontaneamente o diagnóstico que recebeu.

É aqui que o título da dissertação adquire sua ambiguidade mais poderosa.

“A Bolívia é uma doença mental.”

Quem fala?

Sobre quem fala?

E de onde fala?

Nina não transforma essas perguntas em mero jogo interpretativo. Ela as acompanha dentro das próprias personagens de Rivero. Em Piel de asno, a diferença entre “Ser boliviano es una enfermedad mental” e “Bolivia es una enfermedad mental” torna se decisiva. Na primeira formulação, a enfermidade parece habitar o indivíduo. Na segunda, o problema se desloca para a própria construção daquilo que se chama Bolívia. A personagem deixa de receber a doença como identidade e começa a devolvê la ao sistema que a produziu.

É talvez nesse pequeno deslocamento verbal que esteja uma das maiores forças políticas da literatura de Rivero.

Uma palavra muda de lugar.

E, com ela, muda o lugar da culpa.

O que antes parecia essência passa a parecer construção.

A identidade deixa de ser uma substância e começa a revelar sua fabricação.

Nesse ponto, a leitura de Michel Foucault pode iluminar uma dimensão que a própria dissertação desenvolve ao discutir biopoder e biopolítica. Foucault nos ensinou a desconfiar das categorias que parecem simplesmente descrever a realidade, porque algumas delas também participam da produção daquilo que descrevem. Classificar, separar, normalizar, definir o saudável e o patológico são operações que podem envolver relações de poder.

A dissertação emprega essa perspectiva quando observa como o Estado e o discurso nacional podem exercer poder sobre os corpos, inclusive por meio da guerra, da defesa da pátria e da administração da vida e da morte.

Mas há algo ainda mais interessante quando essa leitura é aproximada do conjunto da pesquisa.

Talvez o biopoder não controle apenas os corpos que vivem.

Ele também produza os corpos que precisam ser considerados desviantes.

Aquele que não corresponde ao modelo nacional, ao modelo racial, ao modelo moderno, ao modelo produtivo ou ao modelo identitário torna se suspeito. A diferença precisa ser explicada. E, quando não pode ser explicada, é frequentemente patologizada.

A doença passa, então, a funcionar como uma palavra de fronteira.

De um lado, aquilo que se considera normal.

Do outro, aquilo que precisa ser corrigido.

A literatura de Rivero interessa a Nina justamente porque seus personagens vivem nessa fronteira.

Eles não cabem.

E o fato de não caberem não é um detalhe psicológico.

É uma posição histórica.

A sociedade boliviana aparece como uma formação em que diferentes tempos, culturas, pertencimentos e experiências permanecem em contato sem se dissolverem uns nos outros. A noção de ch'ixi, recuperada a partir de Silvia Rivera Cusicanqui, permite pensar justamente essa coexistência sem exigir uma síntese. A realidade pode ser contraditória sem que a contradição precise ser eliminada.

Aqui a dissertação alcança uma questão que ultrapassa a Bolívia.

A modernidade costuma apresentar se como uma promessa de superação da desordem. Ela imagina uma linha que vai do atraso ao progresso, da tradição à modernidade, da irracionalidade à razão, da fragmentação à unidade. Mas quem decide qual dessas posições representa o futuro?

E, sobretudo, quem ficou encarregado de permanecer no passado?

Nina mostra que a América Latina foi incorporada ao sistema moderno não apenas como participante, mas dentro de uma hierarquia em que modernidade, colonialidade, racismo e capitalismo se constituíram conjuntamente. O “moderno” passou a ocupar o lugar do desejável enquanto determinadas experiências indígenas, rurais e não ocidentais eram empurradas para o campo do atraso.

É aqui que uma aproximação com Walter Benjamin se torna fecunda, ainda que Benjamin não seja uma referência explicitamente utilizada na dissertação.

Benjamin desconfiava profundamente da narrativa histórica que transforma o progresso em uma espécie de marcha inevitável. Para ele, aquilo que uma sociedade chama de progresso pode carregar consigo os escombros daqueles que foram sacrificados para que esse progresso parecesse possível.

Essa perspectiva ilumina uma das questões centrais da pesquisa de Nina: o futuro pode ser uma forma de violência quando chega acompanhado da exigência de abandonar tudo aquilo que não cabe em sua promessa.

O “arquiconhecido futuro” de Genoveva adquire, sob essa luz, uma tonalidade particularmente inquietante. A palavra futuro deveria abrir o horizonte, mas pode funcionar como uma ordem. Há um futuro correto, uma direção correta, uma maneira correta de avançar. O indivíduo é pressionado a desejar aquilo que já foi definido como desejável.

Genoveva percebe essa violência.

O futuro pode tornar se chantagem.

E a utopia, quando transformada em obrigação, começa a carregar a estrutura da distopia.

É uma das grandes sutilezas da dissertação perceber que a crítica ao determinismo não conduz simplesmente à celebração da esperança. Nina é mais cautelosa. As personagens precisam da utopia, mas a utopia também pode produzir novos aprisionamentos. O futuro não é necessariamente libertação. Pode ser outra forma de normalização.

Nesse aspecto, uma aproximação com Nietzsche também pode ser produtiva.

Não porque a dissertação seja nietzschiana, mas porque Nietzsche nos oferece uma pergunta incômoda sobre a origem dos valores: quem estabeleceu que determinado modo de viver é superior a outro?

Aplicada com cuidado ao universo de Rivero, essa pergunta desloca novamente a doença.

Talvez o problema não esteja em uma sociedade que não alcança determinada norma.

Talvez esteja na norma que precisa transformar em doença tudo aquilo que não consegue reconhecer como valor.

A doença, portanto, não é apenas um estado.

É também uma classificação.

E toda classificação possui uma história.

Essa é uma das razões pelas quais a literatura de Rivero não se deixa reduzir a uma narrativa de sofrimento. Suas personagens não são simplesmente vítimas de um mundo hostil. Elas também pensam, recusam, imaginam, migram, inventam, acreditam e criam.

É nesse ponto que a dissertação faz sua passagem mais delicada: da doença à criação.

O que parecia sintoma pode tornar se linguagem.

O que parecia desajuste pode abrir uma brecha.

O que parecia loucura pode produzir uma forma diferente de conhecimento.

A pesquisa observa que, no universo de Rivero, a criação artística aparece precisamente junto daqueles que foram diagnosticados com algum tipo de desordem. O subterrâneo do Império de Evo torna se um espaço paradoxal em que doença mental e arte aparecem lado a lado.

Essa imagem merece atenção.

Porque talvez a arte não esteja do lado oposto da doença.

Talvez ela esteja exatamente onde a doença deixa de ser apenas sofrimento e passa a produzir uma pergunta.

É aqui que a dissertação de Nina toca algo que ultrapassa seu objeto imediato.

Toda sociedade produz seus sujeitos inconvenientes.

Alguns são inconvenientes porque pensam.

Outros porque lembram.

Outros porque não pertencem.

Outros porque pertencem de uma maneira que não estava prevista.

E há aqueles que se tornam perigosos porque recusam a explicação que lhes foi dada sobre si mesmos.

Esses sujeitos não precisam necessariamente destruir a ordem.

Às vezes basta que deixem de acreditar nela.

Em Tierra fresca de su tumba, os corpos dos migrantes carregam cemitérios inteiros dentro de si. A imagem é cruel porque transforma a memória em matéria corporal. A pessoa parte, mas aquilo que deixou não permanece simplesmente no lugar de origem. Viaja dentro dela.

O exílio torna se uma anatomia.

A pátria, uma cicatriz.

A memória, um órgão.

Talvez seja por isso que a doença seja uma imagem tão adequada para pensar a nacionalidade em Rivero. Uma doença não precisa estar visível para determinar uma vida. Ela pode permanecer silenciosa, alterar movimentos, interferir no cotidiano, reaparecer depois de anos. Pode ser descoberta apenas quando alguma coisa já não funciona como antes.

A pátria também pode agir assim.

Há pessoas que só descobrem o tamanho de sua relação com um país quando estão longe dele.

Há pessoas que descobrem que pertenciam a alguma coisa justamente quando deixam de pertencer.

Há pessoas que precisam partir para perceber que carregavam consigo aquilo de que tentavam fugir.

Mas Nina não transforma essa dor em romantismo.

E isso é importante.

A dissertação não diz que sofrer é bom, nem que a doença é desejável, nem que a opressão produz necessariamente sujeitos mais criativos. Sua formulação é mais responsável: dentro da experiência da dor podem surgir movimentos de criação, fé, crença, esperança e impulso utópico que não eliminam o sofrimento, mas impedem que ele seja tomado como destino.

É aqui que a ideia de destino adverso precisa ser enfrentada.

O destino é uma das formas mais eficientes de naturalizar a história.

Quando se diz que determinado povo “é assim”, a história termina.

Quando se diz que determinado povo “tornou se assim”, a história recomeça.

Essa diferença é decisiva para a dissertação.

O pueblo enfermo transforma a história em essência.

Nina tenta devolver a essência à história.

E, ao fazer isso, abre espaço para a possibilidade de transformação.

Benjamin ajuda a enxergar o passado como aquilo que continua exigindo leitura. Fanon ajuda a compreender que a inferioridade pode ser fabricada pela relação colonial. Foucault permite perceber que normalidade e patologia não estão fora das relações de poder. Nietzsche oferece uma suspeita radical sobre os valores que se apresentam como naturais.

Nenhum desses autores precisa ocupar o centro da dissertação para iluminar sua arquitetura subterrânea.

Todos ajudam a formular uma pergunta que talvez seja a mais difícil de todas: quanto daquilo que chamamos de doença é sofrimento e quanto é simplesmente a experiência de não caber na forma de vida que alguém declarou normal?

A resposta de Rivero, conforme a leitura de Nina, não é simples.

E ainda bem.

Porque uma resposta simples destruiria justamente aquilo que a pesquisa procura preservar: a complexidade.

A Bolívia não precisa ser transformada em uma unidade perfeita para existir.

A contradição não precisa ser curada.

O conflito não precisa produzir uma síntese.

A identidade não precisa tornar se estável.

O futuro não precisa ser conhecido.

A literatura pode permanecer aberta.

A nação também.

Talvez seja essa a razão pela qual a inconclusão não enfraquece a dissertação. Ao contrário, ela corresponde ao próprio objeto que a pesquisa encontrou. Rivero não oferece personagens destinados a concluir o mundo. Eles permanecem em movimento, e a própria Bolívia surge como uma história ainda aberta.

No final, a pergunta sobre a cura permanece.

Mas talvez essa permanência seja o ponto.

Porque a cura absoluta poderia significar o triunfo definitivo de uma normalidade. E a normalidade que a dissertação nos ensinou a questionar é justamente aquela que decide previamente o que uma pessoa, um povo ou uma nação deveria ser.

Por isso, talvez a cura não esteja em deixar de ser aquilo que o diagnóstico chamou de doença.

Talvez esteja em deixar de aceitar o diagnóstico como identidade.

Essa é uma diferença imensa.

E é também o ponto em que a literatura de Giovanna Rivero e a leitura de Nina Veras se encontram com uma questão muito mais ampla: a liberdade começa quando o sujeito recupera o direito de narrar a origem de sua própria ferida.

Não para negá-la.

Não para glorifica-la.

Mas para compreender que uma cicatriz também é uma forma de memória.

No derradeiro movimento da dissertação, a doença permanece. A sombra não desaparece definitivamente. A utopia não resolve tudo. O futuro continua incerto. A contradição continua aberta.

E é justamente nessa ausência de fechamento que o trabalho encontra sua força.

A Bolívia continua doente.

Mas agora sabemos que a doença possui história.

Sabemos que houve quem a nomeasse.

Sabemos que alguns dos que receberam o diagnóstico começaram a desconfiar dele.

E sabemos, sobretudo, que existe uma diferença entre carregar uma doença e ser reduzido a ela.

Talvez seja nesse intervalo que a literatura encontre sua tarefa mais difícil.

Não curar.

Não explicar tudo.

Não devolver o mundo à ordem.

Mas fazer aquilo que a boa literatura sempre fez quando se recusou a obedecer às versões oficiais da realidade: dar linguagem ao que foi condenado ao silêncio.

A dissertação de Nina Maria de Sousa Veras é forte justamente porque não termina com uma Bolívia reconciliada consigo mesma. Termina com uma Bolívia ainda ferida, contraditória, inquieta e criadora. Uma Bolívia que não cabe inteiramente dentro de nenhuma definição.

E talvez seja essa a sua forma mais profunda de saúde.

Não a ausência da doença.

Mas a recusa de permitir que a doença diga, sozinha, quem se é.

A última frase da dissertação parece condensar essa descoberta: “A Bolívia é uma doença mental, mas a doença é também uma arma.”

Depois dela, o título já não significa exatamente a mesma coisa.

Porque talvez a doença nunca tenha sido o fim da história.

Talvez tenha sido o lugar de onde alguém finalmente começou a perguntar:

quem escreveu o diagnóstico?

E, sobretudo:

por que eu deveria acreditar nele?

 

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