"A poesia que me atrevo a escrever não admite a precisão da exatidão, é sempre este andar em torno de alguma coisa ela mesma indefinida..."
Marcos Lizardo
Em tempos onde a pressa dita o
compasso dos corações e a utilidade mecânica sufoca a beleza, surge Errando Poesia (2024, 77 páginas), de Marcos
Lizardo. Viabilizada pelos recursos da Lei Paulo Gustavo (tanto em âmbito
estadual em Minas Gerais quanto municipal em João Monlevade), a obra não é
apenas um livro de versos; é um manifesto de acessibilidade, incluindo uma
versão em audiobook narrada por Mariana Lizardo e, acima de tudo, um convite ao
desvio.
Logo na apresentação, o autor nos
desarma ao resgatar a etimologia mais nobre do verbo "errar": não o
equívoco da falha, mas o caminhar sem rumo, o vaguear livre pelos labirintos da
existência. Lizardo assume o papel do poeta errante que, ao longo de quase
vinte anos de escrita silenciosa, acumulou inquietações para finalmente
transbordá-las em um banquete que não serve a nenhum senhor.
A poesia aqui é tratada como um "defeito de nascença", um vício incurável e
um ato de desespero. O eu lírico confronta a frieza do pragmatismo cotidiano , o
trabalhar, o ganhar dinheiro, o "ser alguém" para agarrar-se à
inutilidade sagrada do verso.
A estrutura poética de Marcos Lizardo
edifica-se sobre dualidades viscerais que se chocam e se complementam ao longo
das páginas:
·
A Palavra e o Silêncio: Em poemas como "Eu mexo com palavra" e "Descamba", a linguagem é uma matéria
perigosa. Mexer com a palavra é permitir que ela mexa de volta com o poeta,
arrancando adjetivos e desafiando o silêncio insuportável do mundo.
·
A Torneira Aberta da Memória: No emblemático "Torneira aberta", a criação poética é
comparada ao fluxo incontrolável da água. Ao abrir as comportas, Lizardo
resgata a infância, o gosto pelas palavras simples ("boca,
pedra, folha, sapo"), os primeiros tombos de bicicleta e as
dores agudas do primeiro amor.
·
O Tempo e a Ruína do Corpo: Em "Esse menino", o poeta lamenta o
aprisionamento em um corpo que envelhece e morre, enquanto a infância eterna
permanece viva e oculta como um remédio para a alma.
O lirismo de Lizardo não busca o
aplauso fácil ou a rima simétrica. Ele habita o descompasso. No
poema homônimo "Errando Poesia", o autor
escreve:
“É com a vida que erro minha poesia /
E com a poesia erro meus sonhos”
Há uma circularidade dolorosa e bela
nesse trecho, um jogo de espelhos onde viver, sonhar e escrever são formas
distintas de se perder na mesma estrada.
Já em "Prelúdio Derradeiro",
o mito de Prometeu é evocado para ilustrar o preço do fazer poético: tocar o
fogo divino e o demoníaco, aceitando a angústia de que existir é algo que dói
na pele, mas que o amor é o único elemento capaz de queimar e devolver o
indivíduo inteiro.
Errando Poesia é um livro de
confrontos sutis. Ele nos lembra que a poesia não nos salva do horror do mundo
("Nem a poesia nos salva / Desse tempo tão ruim"),
mas nos oferece a dignidade do grito diante do muro de silêncio que a realidade
impõe.
Marcos Lizardo entrega uma obra
necessária, talhada na lida de quem prefere o abismo da sensibilidade à
planície anestesiada da razão. Ler este livro é aceitar o convite para
desajustar o relógio, perder o norte e, deliberadamente, errar o caminho.
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