sexta-feira, 10 de julho de 2026

Errando o Alvo, Acertando a Alma: Uma Resenha Poética de “Errando Poesia”

"A poesia que me atrevo a escrever não admite a precisão da exatidão, é sempre este andar em torno de alguma coisa ela mesma indefinida..."

 Marcos Lizardo

Em tempos onde a pressa dita o compasso dos corações e a utilidade mecânica sufoca a beleza, surge Errando Poesia (2024, 77 páginas), de Marcos Lizardo. Viabilizada pelos recursos da Lei Paulo Gustavo (tanto em âmbito estadual em Minas Gerais quanto municipal em João Monlevade), a obra não é apenas um livro de versos; é um manifesto de acessibilidade, incluindo uma versão em audiobook narrada por Mariana Lizardo e, acima de tudo, um convite ao desvio.

Logo na apresentação, o autor nos desarma ao resgatar a etimologia mais nobre do verbo "errar": não o equívoco da falha, mas o caminhar sem rumo, o vaguear livre pelos labirintos da existência. Lizardo assume o papel do poeta errante que, ao longo de quase vinte anos de escrita silenciosa, acumulou inquietações para finalmente transbordá-las em um banquete que não serve a nenhum senhor.

A poesia aqui é tratada como um "defeito de nascença", um vício incurável e um ato de desespero. O eu lírico confronta a frieza do pragmatismo cotidiano , o trabalhar, o ganhar dinheiro, o "ser alguém" para agarrar-se à inutilidade sagrada do verso.

A estrutura poética de Marcos Lizardo edifica-se sobre dualidades viscerais que se chocam e se complementam ao longo das páginas:

·        A Palavra e o Silêncio: Em poemas como "Eu mexo com palavra" e "Descamba", a linguagem é uma matéria perigosa. Mexer com a palavra é permitir que ela mexa de volta com o poeta, arrancando adjetivos e desafiando o silêncio insuportável do mundo.

·        A Torneira Aberta da Memória: No emblemático "Torneira aberta", a criação poética é comparada ao fluxo incontrolável da água. Ao abrir as comportas, Lizardo resgata a infância, o gosto pelas palavras simples ("boca, pedra, folha, sapo"), os primeiros tombos de bicicleta e as dores agudas do primeiro amor.

·        O Tempo e a Ruína do Corpo: Em "Esse menino", o poeta lamenta o aprisionamento em um corpo que envelhece e morre, enquanto a infância eterna permanece viva e oculta como um remédio para a alma.

O lirismo de Lizardo não busca o aplauso fácil ou a rima simétrica. Ele habita o descompasso. No poema homônimo "Errando Poesia", o autor escreve:

“É com a vida que erro minha poesia / E com a poesia erro meus sonhos”

Há uma circularidade dolorosa e bela nesse trecho, um jogo de espelhos onde viver, sonhar e escrever são formas distintas de se perder na mesma estrada.

Já em "Prelúdio Derradeiro", o mito de Prometeu é evocado para ilustrar o preço do fazer poético: tocar o fogo divino e o demoníaco, aceitando a angústia de que existir é algo que dói na pele, mas que o amor é o único elemento capaz de queimar e devolver o indivíduo inteiro.

Errando Poesia é um livro de confrontos sutis. Ele nos lembra que a poesia não nos salva do horror do mundo ("Nem a poesia nos salva / Desse tempo tão ruim"), mas nos oferece a dignidade do grito diante do muro de silêncio que a realidade impõe.

Marcos Lizardo entrega uma obra necessária, talhada na lida de quem prefere o abismo da sensibilidade à planície anestesiada da razão. Ler este livro é aceitar o convite para desajustar o relógio, perder o norte e, deliberadamente, errar o caminho.




 

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